Audição Seletiva
Estudos científicos há décadas evidenciaram que o ser humano, através do que pode ser chamado de atenção seletiva, consegue direcionar e amplificar um estímulo em foco, assim identifica por exemplo em um parque com diversos sons, a voz do filho e a direção da qual está vindo, principalmente em situações de urgência.
Em uma época de muitas vozes em tom estridente, essa habilidade de selecionar a atenção é essencial para não se perder na multidão de estímulos.
Na Bíblia, a história de Jó descreve as falas de três amigos que, até com boa intenção, fizeram declarações equivocadas e poderiam ter agravado ainda mais a situação de Jó.
Ouvindo, pois, três amigos de Jó todo este mal que lhe sobreviera, chegaram, cada um do seu lugar: Elifaz, o temanita, Bildade, o suíta, e Zofar, o naamatita; e combinaram ir juntamente condoer-se dele e consolá-lo. (Jó 2:11)
Elifaz, apresenta um conceito equivocado acerca do juízo divino. Para ele o sofrimento é resultado direto das ações, numa espécie de toma lá dá cá. Segundo ele, a justiça divina ocorre em forma de castigos como consequência dos pecados.
Segundo eu tenho visto, os que lavram a iniquidade e semeiam o mal, isso mesmo eles segam. (Jó 4:8)
O próprio Cristo, ensinou que o sofrimento, nem sempre tem relação com as escolhas humanas. Em Marcos 8:31, Ele ensina sobre o Seu sofrimento enquanto Messias. Se Jesus sofreu, então não há uma relação indiscutível entre sofrimento e pecados pessoais. O assunto é muito mais amplo e complexo. No caso de Jó, o sofrimento também não era resultado de seus erros, mas estava relacionado à batalha cósmica do bem contra o mal.
Bildade, fez um apelo ao seu amigo Jó. Segundo ele, se Jó implorasse por misericórdia, Deus o livraria do sofrimento.
Mas, se tu buscares a Deus e ao Todo-Poderoso pedires misericórdia, se fores puro e reto, ele, sem demora, despertará em teu favor e restaurará a justiça da tua morada. (Jó 8:5 e 6)
O contraste em relação à fala de Bildade vem na descrição de Paulo acerca da misericórdia divina. Para Paulo, a misericórdia está disponível para aquele que ainda está cercado por seus delitos. Então, nem Jó estava sendo castigado, e muito menos o caminho para sair dessa situação era um tipo de penitência, onde ele deveria fazer algo certo para alcançar a misericórdia.
Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos, (Efésios 2:4 e 5)
Pelo contrário, no fim das bem-aventuranças, no sermão da montanha, Jesus apresenta a realidade inevitável de que os que O seguem em algum momento serão perseguidos. Claramente a recompensa da fidelidade a Deus, não é terrena.
Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós. (Mateus 5:11 e 12)
Zofar, insiste que Jó faça uma reforma em sua vida, e isso seria suficiente para tirá-lo da situação de sofrimento.
Se lançares para longe a iniquidade da tua mão e não permitires habitar na tua tenda a injustiça, então, levantarás o rosto sem mácula, estarás seguro e não temerás. (Jó 11:14 e 15)
Esse pensamento inverte o processo de salvação, e consequentemente elimina a necessidade de Deus nesse processo. O livro de Romanos traz toda argumentação que esclarece que a reforma é um resultado da influência divina no ser humano, então seria impossível executar o plano de Zofar.
Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei. (Romanos 3:28)
Na verdade, nenhum destes argumentos, dos “amigos de Jó”, precisava ser rebatido, já que no fim do livro o próprio Deus fala com Elifaz e o repreende.
Tendo o SENHOR falado estas palavras a Jó, o SENHOR disse também a Elifaz, o temanita: A minha ira se acendeu contra ti e contra os teus dois amigos; porque não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó. (Jó 42:7)
Então esse texto é mais um exercício de atenção seletiva. O antídoto para as vozes falsas é ouvir atentamente a voz de quem é a Verdade. Quanto mais atenção aos ensinos do Salvador, menos perigo se correrá com a multidão de gritos estridentes tentando capturar seu coração.
